
Já vai tarde. Virei a folhinha sem nenhuma saudade. O ano passou comigo tomando guaraná e assistindo Dr. House. Ouvi fogos do lado de fora do meu quarto. Ouvi risos e felicitações de bom augúrio. Recebi alguns pessoalmente, por telefone, e-mail e o escambau. Desejo o mesmo a todos, embora não consiga compartilhar dessa exaltação toda. Prefiro minha parte em vodka e/ou cerveja, mas tá valendo.
2009 não foi dos piores, assumo. O troféu de pior ano vai para aquele maldito ano par que literalmente me deixou marcas e no qual fiz várias viagens ao inferno, às vezes esquecendo do bilhete de retorno. Passou. Ou melhor: eu passei por ele. Não incólume. Nunca é.
2009 levou uma das pessoas mais doces e engraçadas que já conheci na vida e que tive o prazer de por 28 anos chamar de tia. Não bastasse levar ainda o fez de forma dolorosa. Nem toda a fé do mundo me faria entender como se passa a lógica de um Deus que age assim, em toda a sua onipotência. Eu e Ele temos sérias contas a acertar por isso. 2009, enfim, foi marcado por uma série de desencantamentos. O afetivo ainda é ferida que lateja louca nos dias de chuva (CFA). O do trabalho eu já carregava há tempos e atingiu seu limite no final do primeiro semestre, quando se instaurou um clima insuportável no ambiente. Vi pouco meus amigos e isso me desencanta da vida. Ela não é fácil pra ninguém, mas sem os amigos por perto chega a ser covardia. Não vi nenhum grande filme e nem li nenhum grande livro. Definitivamente 2009 não deixou saudades.
Minha porção Polyana me faz lembrar que 2009 também me trouxe a pós-graduação e me levou à Bahia. Estudar o que eu quero sem ter que cumprir uma grade de disciplinas obrigatórias mais chatas que funk tocando no ônibus. Ver a festa de entrega do presente de Oxum em pleno terreiro de Gantois, saindo às ruas ao som de rum, rumpi e le. Pisar no chão sagrado da Casa Branca do Engenho Velho, o ilê mais antigo do Brasil. Talvez haja algum equilíbrio.
De 2010 não espero muita coisa. Aprendi (no tapa, mas aprendi) que é mais sensato não criar grandes expectativas. Esse papo de página em branco que posso preencher como bem quiser não faz muito sentido pra minha vida. Acredito sim que tudo são escolhas. Mesmo nas piores situações. Mesmo apanhando. Você pode levar porrada quieto ou pelo menos gritando. Você pode fechar os olhos ou olhar fundo na cara do seu algoz. Você pode acreditar que será bom ou acender mais um cigarro e dar de ombros. Sempre dá pra escolher alguma coisa.